quinta-feira, 20 de maio de 2010

10

Medusa: Rubens.


Lua crescente:
Lua propícia para investir no tirocínio,
Ou planejar um ilustre tiranocídio
Enquanto a maré cheia das ações
Levam gente fodida à bancarrota.

Fronteiras em sangue.
Os soldados fazem jus ao seu soldo,
Todos fiéis ao script, na lua crescente
Semi-plena.

o meu horóscopo diz que devo produzir.
Mais do que eu já produzo?!
Diz que devo semear.
Semear o que? Não há terra aqui,
E as frutas que restaram estão no merkkkado,
E as folhas tóxikkkas estão no mercado,
E eu mesmo estou no mercado
Produzindo e produzindo o velho lucro escroto.

O front e o poder estilhaçaram-se,
E agora estão em cada esquina.

Eu estou no cadafalso
E vejo a face do carrasco em cada homem e mulher,
E sangue grosso e quente escorrer pelas paredes.
O flower-power não deu certo,
O tiro de flor saiu pela culatra do cahimbo de haxixe
E ex-hippies são agora velhos neo-nazistas
Recrutadores de qualquer jovem lunátikkko
Que esteja disposto a esmagar uns crânios degenerados,
Tudo em nome da Humanidade Superior Melhorada.

Quando a última gota de espontaneidade estiver acimentada,
Quando o último e trêmulo graveto de individualidade for esmagado
Pelas botas militarescas da Ordem.
Quando o último sorriso verdadeiro for rotulado, classificado e tarifado,
Então será o fim.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Aos que sapateiam neste monturo.

Meus caros. Tentei fazer umas coisinhas visando organizar este monte de merda que me sai pelos poros involuntariamente, mas já desisti. Não tenho lá essas intimidades todas com o tal do blogger, a coisa foi embaralhando mais ainda, eu fui me estressando, e o resultado é que eu fiquei puto da vida. Sim, eu fico puto da vida com facilidade. Fumei uns 50 cigarros pensando em como separar a porra da minha produção de realismo fantástico, do que poderia ser considerado mais honesto e confessional, mas não tem jeito. Não consigo perder tempo com isso, afinal, ninguém lê nesta merda de Brasil, e não vale a pena esquentar muito a caixola. Portanto, a coisa vai ficando assim mesmo, como está, esta lama difusa e confusa, este pântano de sensações baratinadas embaralhadas abestalhadas embasbacadas, este mel amargo e podre, estas confissões de sub-literato. Se enquadrar em escola, e organizar escritos por gênero é para os filhotes bem-nutridos da elite, coisa de jovenzinhos rosados que têem o seu futuro sinanceiro garantido por alguma teta BEM suculenta, que vai o manter tranquilo e com tempo para suas efabulações bem-organizadas.
Além do mais, essa história de confessional/não confessional é uma boa de uma dicotomia imbecil-platonista. Tudo é confessional, meu PEIDO é confessional, minhas bandejas carregadas na choperia são confessionais. Afinal, que porra neste mundo não é confessional?
A coisa está aí, menos ou mais explícita, mais está aí, e NÃO É NON-SENSE!!!

terça-feira, 11 de maio de 2010

Eli, Eli, Lama Sebachtâni!*



- Você nunca tira essa boina?

Numa sala de sobrado abandonado. Com luz débil. Claude entrevistava o andróide, cada um numa extremidade da mesa carcomida.
- Sim, cinco vezes na semana, exceto aos domingos. Isto faz parte de um intrincado sistema metafísico-filosófico-esotérico-culinário.
- Culinário?
- Sim, é a trans-cozinha, uma forma de se alimentar somente de alimentos provenientes do Tibet.
- Você compra alimentos no Tibet?!
- Eu, não. O Grão-Comprador da OBOMMA (Ordem Boinista Oculta e Muito, Muito Antiga.)
- E ele só traz alimentos?
- Não. Traz também um sumo secreto que nos eleva a um estado místico-noético.
- Sei, e Noético vem de Noé...
- Não! Vem de Nous.
- E o que é o Nous?
- É o além do além onde não há aqui nem além.
- Vocês são tri-loucos!
- Quadri.
- Como?
- Na OBOMMA o Ser é visto como entidade quaternária.
- Quem fundou esta Ordem?
- O Neruda. E o Borges afundou. Pirandello e Gogol irão desafundá-la. Só assim o Ciclo se fechará.
- Pirandello e Gogol...
- Sim, morreram. Mas uma seita milenar fundada por um pithecantropus erectus vem protegendo os seus descendentes através dos tempos.
- A função deles é essa?
- A missão.
- Então, porque a tal seita foi fundada tão antes de Gogol e Pirandello?
- Nós não cremos no tempo.
- Explique melhor.
- Daqui não passarás.
- Como?
- Daqui não passarás. Daqui não passarás. Daqui não...ZIIIIIIIIIIIIUUUUUuuuuuuuummmmmmmmmm...

O APEM (Andróide Para Entrevistas com a Mídia) desligou-se completamente. Cabeça pendente, queixo tocando o peito.
Claude, o entrevistador, sentiu uma imensa vontade de tirar-lhe a boina cinza ajustada perfeitamente à cabeça.

Tirou.

No topo da cabeça do andróide, Claude leu, numa tela LCD (Liquid Cristal Display), o que não soube ser pilhéria, melodrama, non-sense ou mistério profundo:


PAI, POR QUE ME ABANDONASTE?
BIP BIP BIP!...A mensagem foi substituída por uma contagem regressiva em números vermelhos que começou do 10.
Claude, subitamente ciente do que se tratava, catou sua bolsa, a boina cinza, seu bloquinho, e saiu do sobrado abandonado em disparada.
A explosão se deu no exato instante em que Claude escondia-se atrás de um container de lixo, de onde fugiram centenas de ratos alucinados.

*Este conto faz parte de minha safra Cyberpunk. Estilo pelo qual sou apaixonado. O curioso é que quando dou vazão à veia Cyberpunk, não consigo evitar o humor, ainda que seja um humour-noir. Eu já publiquei este conto aquino blog, mas gostaria muito que os que acompanham este blog o lessem com mais atenção, de preferência escutando algum som pesado, e com a mente cheia de qualquer coisa que a arranque da vibração ordinária (esta ditadora sádiKKKa!). O caso é que eu gosto muito do que fiz neste microconto...

sábado, 8 de maio de 2010

Um Encontro


Aquela mulher era tão estranha. E o mais estranho era que não havia nada de estranho em sua aparência. Era mais uma mendiga enlouquecida pela miséria extrema, entre tantas outras que há no centro da cidade.
Ela me disse que se chamava Diana, e que nos encontraríamos mais tarde.

Agora não consigo dormir. Estou sentada na cama, assustada.
O ar do quarto está saturado do perfume dela.
E o mais perturbador é que, quando repasso o nosso encontro na mente, meu ouvido interno reluta em substituir "meu nome é Diana", por "meu nome é Diabo".

terça-feira, 4 de maio de 2010

9

Baralhos abertos em pernas,
Significando a atual conjuntura
Através de um signo mutante.

Eu sou um hieróglifo à deriva.
Sem coluna de fogo indo à frente,
Mas com o Faraó e seu exército no encalço.

Sabe-me a lava e a saliva,
-também os lagos de lama-
Putrefaço a passos largos, como tudo.

Ideogramo-me em versos esquizos,
Forjados no forno azul da paranoia
Onde dormem juntos Dragão e Fênix.

Eu sou o joio e o trigo
Tantralizando-se em sexo alquímico
Entre fendas de concreto.