quinta-feira, 15 de novembro de 2012

99.


Descendo a ladeira vai o morto,

sobre o dorso da fera peluda,

que ao contrário está em outro estado

muito vivo de corpo e consciência.

E esta fera forma com seu dorso

a ladeira, e suas rugas são becos,

e os becos são berços urbanos

que embalam bebês cheios de ternura,

putas e beatos, e filhos assustados de psicopatas

vendo pornografia hard-core na calada do couro preto da noite eterna da fera.

E se papai me pega vendo esse vídeo?

Vai ser violento. Se ainda fosse de homem com mulher,

ele nem metia a colher, mas de homem com homem,

ali só se mete o cacete e se chupa o cacete e se papai vir isso

estou fodido e não é no sentido positivo do verbete.

Nos becos da fera o fogo arde,

e a vida fere,

e as feridas da fera são bocas vorazes

de lobos ferozes que babam ácido.

E as poças que se formam fumegam,

Principalmente quando as crianças, esquecidas do perigo,

trêfegas de fome, brincam dentro delas, deixando ali as suas carnes,

que se descolam dos seus ossos, junto com veias, nervos e dermes.

As mães choram ao verem suas crianças-esqueleto tiritando de frio,

e as proíbem de cruzarem os braços,

pois temem a figura formam quando fazem esse gesto.

“Mas é assim mesmo” dizem elas,

“pois a Fera é a Fera e antes dentro dela que lá fora!

Lá fora, dizem, há um morto descendo pelo lado escuro do dorso,

assobiando uma canção de arrepiar,

rumo à orelha esquerda da cabeça peluda.

Lindo será quando se arrepiarem os pelos da fera.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Hecatônquiro 100

Uma poética bruta,
td a v c/ a tecnocracia oligofrênica
e a burrocracia que ri de mim
com seus dentes que antes de apodrecerem
emitem dez mil petições de às vezes
não as têm deferidas.

pontos esburotrágicos enfestados de vermes verdes,
loucos de heroína, transpirando anfetaminas e pus com graxa
(são vermes robóticos).

Os dentes querem o seu momento de merecido descanso,
mas os castelos-cartórios já lhes emitiram cartas de veto à morte,
e tudo resolveu fazer um estardalhaço pelo supremo direito
de se foder em paz.

Os buracos trágicos da democracia burguesa
me parecem Faustos Falsos com casacos de Gógol
repletos de cinzas de cigarro e veneno de rato.

Um dia,
ele passou merda dissolvida em mijo
por todo o corpo,
entrou numa igreja,
e ficou lá, numa beatitude puta,
num beat de viciado que perdeu as vísceras da mente
e ruma mudo rumo ao fim da vida.

domingo, 16 de setembro de 2012

Álgebra

Após cálculos complicadíssimos,
numa cifragem algébrica
ainda desconhecida pela humanidade,

descobriu,
estupefato:

"A vida não é breve.
Varia de mínima

a semibreve.

Faltava-lhe compreender o problema das pausas.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

MOLOCH NÃO ME QUER NEM COMO CAPACHO. OU RELATO DE UMA FOME. OU KNUT HAMSUN NÃO ESTAVA BRINCANDO. OU ALGUÉM VIU NO DISCHOVERY CHANEL QUANTO TEMPO UM SER HUMANO SUPORTA SEM SE ALIMENTAR?



Eu não sei o que é o inferno, mas deve ter a ver com um coração muito opresso e um bolso vazio. Deve ter fome, e a impossibilidade de conseguir alimento a não ser por métodos ultrajantes. Deve ter algo de culpa, e bastante de acusações e julgamentos. O Inferno deve ser definhar de fome enquanto duzentos milhões de juízes te observam num círculo monumental, e você é apenas a formiguinha no meio dos gigantes. Estar com fome um dia inteiro deve ter a ver com inferno, deve ser uma analogia cristalizada. E há quem creia em Deus, ou em deuses. Para mim seria terrível acreditar em Deus ou deuses, porque eu concluiria que todos eles são uns cretinos escrotos. Lovecraft cria em seres sobrenaturais, seres sádicos e fétidos, ávidos de poder e sacrifício. Kafka suspeitava de Deus, e a sua crença não era diferente da do bruxo de Providence, só que com engrenagens e papeladas e olhares frios de juízes, ah os juízes, “somos um mau pensamento que aconteceu na cabeça de Deus”, dizia K. Você sabe o que é estar com fome por um dia inteiro, e ir dormir com fome, e ver a sua garota ir para a companhia de parentes porque você não tem um centavo para um chiclete e depois você fica sozinho...você sabe o que é ficar só? Não digo só no seu quarto, eu falo de ser renegado pela sua família por motivos absurdos, porque eles são crentes xiitas e acham que você fez pacto com o demônio e acham que te ajudar seria como prolongar os dias de satã na face da terra.
Você sabe o que é ser um ser humano íntegro, e se dar conta de que a sua família acharia até uma boa se chegasse em sua varanda e de longe sentisse o fedor adocicado do seu cadáver e te encontrasse lá dentro putrefato com os seus fluidos já irrigando a terra pelas reentrâncias do piso e sendo pasto de moscas?
Fome. Quando eu li o livro mais punk de Knut Hamsun eu já sabia que aquilo cedo ou tarde iria acontecer comigo.
Às vezes eu consigo dormir com fome. Essa noite eu não consegui. Acho que é nesse ato que a cachaça entra em cena. Para beber não se faz necessário dinheiro. Então fecham-se as cortinas e era uma vez dignidade.
Existe uma pessoa da qual não faz mais sentido falar. Bukowski falou do dele até a velhice. Caso eu seja chamado para alguma entrevista de emprego, não poderei ir, não tenho dinheiro para passagem. E tem gente que teme uma revolução de tipo socialista! Por mim os ricos viravam suco. Não sou adepto de um revanchismo, mas você já assistiu “O Homem que Virou Suco”?
Não sei se sou budista. Muitos diriam que não sou budista porque fumo um cigarrinho sempre que posso, porque bebo um trago vez por outra ou porque falo palavrão. O que posso dizer com certeza e sem medo de erro é que para mim a simbologia budista é impressionante. Sabe quem habita o inferno mais profundo na cosmologia simbólica budista? Os fantasmas famintos. Dá um bom nome de banda, não? Os fantasmas famintos são seres que têm uma pança enorme, uma garganta da espessura de uma agulha, e uma bocarra medonha. Esse é o estágio mais distanciado da Iluminação, ou Bodhi. Esse estágio é pior que o estágio animal, porque o animal quer com muita voracidade, mas o que ele quer, ele consegue. No estágio de fantasma faminto você quer muito, porque já está há tempo demais privado, você tem ventre e boca enormes, mas não tem garganta, ou seja, não tem meios de conseguir o que quer. Aqui você na verdade não está apenas distante  do reino dos Deuses, ou Devas (lembrando que o budismo não é reencarnacionista, trata-se de uma alegoria sobre estados mentais), aqui você está distante mesmo do Reino Humano, aqui você está distante até mesmo do equilíbrio básico para prosseguir na vida. O budismo associa a fome ao inferno, e eu gosto disso.
Mas um fantasma faminto escreve? Eu estou com fome. Se eu quiser traduzir esse texto, resumir a ópera, sugar os floreios, tudo se resume a: eu estou com muita fome, não tenho grana para sair, não tenho parentes dispostos a ajudar, não tenho cara de pau para mendigar para amigos (que também não nadam em dinheiro e têm seus próprios problemas), não faço a menor idéia de quando irei me alimentar novamente, ou do que será minha vida de agora em diante. Definitivamente cheguei na barra mais pesada da vida que vivi até agora.
Mas um fantasma faminto escreve? O caso é que essa história toda de fantasmas, demônios e deuses não passa de alegoria. Não existem categorias rígidas de estados mentais em que se possa enquadrar as pessoas. A mente ferve, sobretudo a minha. Mas uma pessoa pode ficar muito mal, sim, e a sua mente pode ficar bastante monolítica, paralítica. Tente entabular uma conversa sobre o estilo indireto livre em Flaubert com um mendigo esfomeado que você vai ver...
A fome não alterou a minha personalidade. Alterou um pouco meus nervos. Estou escrevendo porque talvez a fome não tenha saído do meu estômago. Talvez seja excesso de consciência decorrente de anos de Zazen (meditação zen). Estou vivendo conscientemente cada segundo da fome, e já não sei se torço para ser chamado para uma entrevista de emprego ou não. Se eu não for chamado, fico mal. Mas se for chamado, posso ficar pior, pois não posso me locomover. Não consigo ver amigos, não consigo cumprir compromissos. Estou preso em casa, muito fraco e debilitado. Agora estou com uma sonolência que é na verdade um torpor. Vou na casa de um vizinho publicar isso, depois vou para a cama. Espero que eu acorde...

terça-feira, 6 de março de 2012

Leituras: Duas Narrativas Fantásticas. F. Dostoievski.






Duas Narrativas Fantásticas: A dócil e O Sonho de um Homem Ridículo.
Fiódor Dostoievski.
Tradução, prefácio e notas de Vadim Niktin.
Editora 34 (Coleção LESTE).

A Dócil




“Pois já faz seis horas que eu quero
ver claro e não encontro meio de
juntar as ideias num ponto.”




Ele foi acusado de covarde no regimento onde ostentava uma “farda brilhante”. Diante da sua mulher morta, ele tenta organizar a mente em frangalhos. Após a degradação total, ele recebe uma herança, e estabelece-se num negócio (usurário). Então passa a nortear a sua vida baseado num racionalismo pragmático, tornando-se um cultor do isolamento e dos relacionamentos frios. Ele é leitor sensível, cita de Goethe a Púchkin, o que é só um entre os inúmeros temperos que realçam a sua contradição. Ele tenta dar mais sentido à vida contratando uma “mocinha” para ocupar o espaço de esposa na sua casa, visando assim aplainar a existência, escamoteando-lhe as contradições que lhe são próprias mas que para ele são infernizantes. Então os sentimentos, não suportando serem varridos para debaixo do samovar, emergem num turbilhão, e terminam por subtrair-lhe o chão subitamente quando a sua mulher, após meses de um mutismo sufocante entre os dois, atira-se da janela, abraçada a um ícone da Virgem.
Publicada pela primeira vez em novembro de 1876, no Diário de um escritor, revista totalmente capitaneada por Dostoiévski, e baseada num caso verídico descoberto pelo russo leitor compulsivo de jornais, A Dócil prova que, em literatura, tamanho não é documento. Dostoiévski cm pôs em poucas páginas uma obra magnífica, em que o homano se revela vibrante de contraditoriedade, e o tema da eternidade é perscrutado diante de um flagrante quotidiano.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

traga sua alma amanhã,
quando você vier buscar aquele livro,
e não se esqueça de esmerilhá-la
porque o mercado é exigente.

sugaram a minha toda ontem
enquanto eu, distraído,
dava de comer aos meus olhos cansados.

vamos vender também o que nos resta de ossos,
sobretudo a espinha dorsal,
um amigo meu os vendeu ontem.
até que ele se vira se arrastando por aí,
só com pele e carne,
espetáculo meio triste,
mas o ruim mesmo são as formigas,
e os cães que mijam em qualquer lugar.

e essa inteligência que você tem no bolso?
cuidado, a essa hora na rua...está fazendo volume.
deixe-a aqui em casa
que eu estou precisando mesmo
de um peso de papel.

boa noite.
durma bem.

sonhos?!

não os tenho mais,
vendi a um poderoso mercador,
os dele estavam minguados,
aguados.
os meus queimavam, aguardente,

meus dentes?

não. preciso deles.
às vezes não entendo direito a novela,
e preciso mastigar por horas a fio
antes de dormir.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O ùltimo Cigarro

Neste pátio de convento
que não é meu, e hoje é faculdade,
fumo, só, o último cigarro da carteira,
e considero mais uma vez ser ele o último
da minha vida.

Mas a vida range, porta velha,
e eu sempre volto ao cigarro.

Lá fora um mar de corpos
cresce, numa cheia ininterrupta,
recebendo rios que desaguam
de ruas adjacentes.

Quando vaza, só os seres abissais,
luminescentes.

Seria muito rock'n'roll
se estourasse uma revolta
nesse mar, que é tão monótono,
e o dia naufragasse trôpego
em suas agendas,
e de todos os compromissos
só nos restasse o de vivermos melhor.

Os modernos shoguns em pânico!

É esse eol no cimento que me alucina,
não estoura nada.
Lá fora, só o marasmo e a rotina
da divisão social do trabalho
(e da arrecadação privada dos frutos).

E vai se acabando o meu último cigarro,
o meu mais santo remédio contra a náusea.

Micro-manifesto da minha pseudo-poética

Eu não faço poesia,
eu amolo pedras.

Eu não faço poesia,
eu bulo em serpentes
cobertas de feridas.

Eu não faço poesia,
não tenho tempo para pesar
ponderar e burilar
como fazem os verdadeiros poetas.

Eu não faço poesia,
eu me insurjo contra a brutalização.

Espelhos Tortos

Espelhos tortos

Do seu carro japonês,
o homem olha para o ônibus
ao lado.
... O trânsito está paralisado,
e o ônibus, abarrotado.

Para onde vai essa gente?
De que buraco sai esse povo?
Onde eles passam a noite?

"Não sei,
só sei que Iraildes
chega lá em casa às sete.
Gosto de pontualidade,
aprendi na Suiça."

Aflito, o homem do carro japonês
olha o seu relógio de ouro.
No ônibus ao lado,
Iraildes nem percebe o carro japonês
do seu patrão.

Já deveria estar em casa, dormindo,
seu Clóvis cobrava pontualidade.
Mas fazer o que?

Ela não tinha carro japonês,
e a cidade não tinha trens suiços.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A Manutenção da Ferida

na estria dos dias
o astro pendido do betume
do espaço.

selvagem,
soturno,
veste de mendigo,
sol de boate à meia-noite.

e sempre a mesma ladainha vertigens e luzes místicas ou saudades da origem perdida e a buscaeabuscaeabuscaeabusca...

nesta manhã, em que há tanto a fazer,
o poema insurge-se fênix,
babando letras ácidas,

maantendo aberto o corte
(anti-célula)
para que o sangue escorra livre,

para que a carne não vire
fóssil.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Rock & Metal Lyrics: Running Wild. Fight The Oppression



Lute Contra A Opressão

Ogivas atômicas, armas de todos os tipos
Inventadas para destruir
Para encontrar suas vítimas, para aniquilá-las
Falsos governantes, ministros da defesaT
e levando à guerra
Você não vê onde tudo isso termina?

Destruição total, a morte do adversário
Contaminação, epidemias e medo
Derramamento de sangue continuará até o último suspiro
Sem solução se o sangue alimenta o mecanismo
Lute contra a opressão, (agora!)
Lute contra a opressão, (abaixo!)

Megalomania, a doença dos governantes
Decepção e traição
Sua vida é o que eles se apoderam
Toda a liberdade está morrendo, reinar é a lógica
Te levando à guerra
Você não vê onde tudo isso termina?

Destruição total, a morte do adversário
Contaminação, epidemias e medo
Derramamento de sangue continuará até o último suspiro
Sem solução se o sangue alimenta o mecanismoLute contra a opressão, agora
Lute contra a opressão, (abaixo!)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Poemas de livros hipotéticos: Sonho

Seduzo a besta,
e acaricio-a suavemente com dedos de aço.
Nunca quis abrir aquela porta,
embora ela brilhasse e meus olhos doessem,
e os olhos vermelhos brilhando ao fundo
sempre me seduzissem antes de dormir.

Entro na porta,
subo as escadas,
meu coração espera, batendo,
num altar de escamas verdes.

Grito,
ao descobrir que nada bate ali,
e que sempre vivi a orla exterior
da minha galáxia-vida.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Poemas de Livros Hipotéticos: Hecatônquiros. Poema 1.

poema é punheta, punhal,
pílula do dia presente,
pústula purulenta,
putrefação infestada de vermes em festa
(letras).

poema é pó, pergunte e ele te responderá,
diluído em suco gástrico,
semente nerudiana ardendo em sulcos na página.

(pélvis só, gotejando sumo, triste pau mole, sumô solitário).

poema é postulado de loucos sem apriorismos,
post-script, post-mortem do poeta,
pilar de ossos na montanha negra
em meio à treva devastada.

(cuspe de morfético. morfina de efeito inverso, jogo de espelhos que se erram).

alvo escuro crivado de incertezas,
o poema é sempre um eco
emergindo do oco.

os melhores poemas
são secos como socos.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Poemas de Livros Hipotéticos: Hecatônquiros. Poema 2

2.
Pela fresta da página,,
pelos pêlos da epiderme
(branco-osso, linhas azuladas,
ventos gélidos surfando a face).

Memória, criação, reciclagem de palavras,
latidos de cães lactentes,
e um pulsar agonizante,
trasladando um pulsar suspenso em nebulosa.

[Tessitura, partitura, rompimento com o sorumbático emocional absoluto]

Tomo o pulso do poema,
e ainda há vida nele,
e se há nele, há em mim.

Latrina de todas as fezes,
Mãe-mor de todas as fossas fétidas,
concubina de Satanás num harém do inferno,

há um deslimite mas o jorro embora impetuoso sempre encontrará paredes e canais
por mais largos que esses sejam
(a língua, sintaxe, ser minimamente compreendido).

Entre solipsismo e comunicabilidade,
uma árvore cresce, com raízes espraiadas,
mil braços de Avalokiteshvara,
e em cada mão, um objeto,

um lutador cercado
cuja concentração da atenção
significa morte.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Saída de Emergência



Marcos chegou em casa às dez e meia da noite. Mais um dia de busca por emprego. Mais uma entrevista infrutífera. Mais uma promessa de “estaremos entrando em contato caso surja uma vaga”. Desde que concluíra, a muito custo, o ensino médio, a sua vida vem sendo uma Odisséia de sub-empregos, o que não raro o fazia sentir-se sub-humano. Ele nunca soube o que é um emprego seguro, e um mestre de obras para ele equivalia a um Escolhido dos Deuses.
Nada de comida nos armários enferrujados do quarto-cozinha quentíssimo e mal pintado. Na geladeira, só um restinho de feijão e uma colher de sopa de arroz, além de um ovo, o último. Que faria no dia seguinte? Se ainda fosse um dos queridinhos da família, poderia pedir um dinheiro emprestado, mas, ainda que conseguisse o empréstimo, como pagaria? E quando esgotasse o dinheiro emprestado, o que faria? Pediria mais e mais e mais e mais? Ora, para tal prática há um nome preciso no léxico da língua portuguesa: mendicância. E essa palavra não parava de ecoar na mente de Marcos, que sob o chuveiro, agachado, lembrava de todos os mendigos que vira naquele dia. Mendigos nas calçadas, mendigos nos ônibus, alguns necessitados de alimento, outros já presas do crack...
Saiu do banho. Se enxugou com uma toalha esburacada. Acendeu a única boca que funcionava no fogão velho, e colocou sobre ela a única frigideira que possuía, e que já estava totalmente amassada e sem cabo. Colocou um filete de óleo de soja, e quando este estava suficientemente aquecido, estalou o derradeiro ovo. O mal-cheiro que escendeu da frigideira e a coloração escura do ovo fizeram Marcos sentir-se o mais desafortunado dos homens. O ovo, o último, estava estragado.
Essa noite só haveria uma porção de feijão velho e uma colher de sopa de arroz endurecido. Depois, dormiria, para não arriscar-se a sentir fome novamente. No outro dia iria de estabelecimento em estabelecimento do seu próprio bairro em busca de qualquer serviço pelo qual alguém estivesse disposto a pagar. Tentaria também oferecer-se para capinar quintais, e procuraria algum pedreiro que aceitasse ajudante, mesmo sabendo que não tinha a menor qualificação para isso.
Mas, supondo-se que Marcos conseguisse alguma obra para servir como ajudante, e quando a obra acabasse? Haveriam tantas obras assim para mantê-lo alimentado por um ano? A mesma indagação se aplica à capinação de quintais.
Precisava de um emprego, rápido. Mas aos quarenta anos nenhum call Center o aceitava, nenhum Buffet, nenhum restaurante, nada! Estava desempregado, sem qualificação, sem perspectiva, e quando olhava para o seu futuro só via três opções: a mendicância, o crime e o suicídio.
Marcos não tinha o menor talento para o crime.
Sentou na cama. Olhou para a sua pequena biblioteca. Velhos companheiros: Lorca, Hemmingway, Kafka..., e que diferença faz agora? Ganharia uma bolsa do governo por entender Wittgenstein? Por ter lido e relido “Os Irmãos Karamazov”? haveria uma vaga de professor de literatura russa nas escolas públicas esperando por ele? Não, ele não tinha os canudos, não tinha os passaportes, estava impedido de voar por não atender às exigências burocráticas, como na música de Raul Seixas.
Quando criança sua brincadeira predileta era de professor. Aos 14, sonhava em lecionar filosofia, e incitar jovens a adotarem posturas mais críticas, poéticas e combativas.
Pensou nos seus sonhos de moleque, pensou nos espancamentos sádicos ministrados por seu pai. Pensou na sua mãe atirando-se de um prédio com a cabeça encharcada de tarjas-pretas, um dia depois da pior surra da sua curta vida, também aplicada pelo carrasco oficial da casa, o pater famílias, como dizia Marcos nos seus poemas. Finalmente chorou, amargamente, com esgares lancinantes que assustariam os vizinhos, se estes não estivessem vidrados no último capítulo da novela.
Correu para a cozinha. Pegou o álcool.
Encharcou os livros na estante, riscou um fósforo, ateou fogo, e deitou-se na cama em posição fetal. Em poucos minutos toda a casa ardia em chamas. Os vizinhos da pequena vila onde morava chamaram os bombeiros, mas estes chegaram tarde demais. Não para salvar a casa, mas para salvar o homem que jazia agora irreconhecível, carbonizado, assemelhando-se a uma semente de feijão preto fumegante. O cheiro da carne humana tostada era horripilante e nauseabundo.
Os parentes de Marcos chegaram, logo após os bombeiros, e todos chegaram logo após o fim da novela. A mãe de marcos chorava de verdade, embora tarde. Outros pareciam chorar, mas na verdade tinham os olhos irritados pela fumaça. Outros ainda choravam mais verdadeiramente que a mãe de Marcos, eram os donos do imóvel. Pancho, o gatinho preto de Marcos e sua única companhia, chegou, entrou na casa, olhou tristemente para o corpo do dono e fugiu, para nunca mais ser visto.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Fresta



1.
A Coisa estava ali, no meio da rua. Ninguém sabia ao certo o que era, nem de onde tinha vindo. Nenhum dos observadores sabia dizer com exatidão como tinha aparecido.
Era grande, e em tudo assemelhava-se a um tumor. Estava úmido, exalava odores pungentes e indescritíveis. E pulsava, latejando em pontos variados.
Quando a polícia chegou, todos se afastaram, com os olhos vidrados na Coisa, tão vidrados que nem perceberam que aqueles homens não trajavam uniformes de nenhuma força militar brasileira. Cinco homens cobriram a coisa com uma espécie de lona que ajustou-se à coisa imediatamente após entrar em contato com a sua superfície úmida.
A Coisa não pulsou mais, pareceu petrificar-se, e os cinco homens rolaram-na para dentro de um caminhão-baú preto. A epiderme do asfalto ainda testemunhava que ali havia estado algo enorme, esférico e úmido, e tal testemunho era dado através de um disco de fluido que refletia distorcidamente as luzes da noite citadina.
No outro dia o âncora do telejornal noticiou que um jogo militar havia sido realizado na Ladeira da Fonte, ao lado do Teatro Castro Alves, um jogo que envolvia reações a armas biológicas. Em tal jogo, segundo o âncora, havia sido usada uma réplica de bomba bio-mecânica-bacteriológica engendrada por um grande estúdio de efeitos cinematográficos.
Com o tempo, a história foi digerida pela população. Com exceção dos transeuntes mais desconfiados, que se lembravam muito bem de não ter visto movimentação militar alguma antes daquela coisa simplesmente aparecer no meio da ladeira.

2.
Dona Brígida, moradora de rua, sentada num banco do largo do Campo Grande, lembrava, catatônica, do que aparentemente só ela vira: Um ser indescritível e titânico esgueirando-se através do céu noturno, abrindo-lhe uma fresta como se esse fosse uma cortina de veludo, colocando cuidadosamente aquela massa pulsante no meio da Ladeira da Fonte. Era como se a cidade de Salvador fosse uma casinha de boneca que dona Brígida tivera quando criança. Mas não foram só casinhas de boneca que estiveram presentes na distante infância da simpática habitante das ruas do Centro. As visões também, e numa tal freqüência que a deixaram transtornada, alcoólatra, execrada da família e da sociedade dita normal.
Mas nenhuma visão se equiparava àquela.
Daquela noite em diante, dona Brígida não saiu mais do Campo Grande.
Jônatas, um garotinho de onze anos que fazia malabares no farol do Largo dos Aflitos, lhe trazia refeições frugais uma vez por dia (achava-a parecida mãe morta por um soldado da polícia).
A velha não falava mais, só olhava o dia inteiro para o céu e rascunhava uns papéis puídos. Jônatas achava os rabiscos parecidos com os que via nas revistas em quadrinhos que folheava de vez em quando na banca de revista do Shopping Piedade, e como andava cansado de ser escurraçado pelo jornaleiro, dera para entreter-se com os rabiscos de Dona Brígida. Imaginava-se cavalgando aqueles seres enormes que voavam livres entre as estrelas e espiavam furtivos fendas abertas nas cascas dos planetas.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Reencontro com K.

Kafka, por R. Crumb

O sanatório estava lotado. O homem que havia chegado ensopado até os ossos tiritantes estava tartamudeante de tanto frio. A exemplo de um personagem seu, ninguém entendia suas embromações. Estava extremamente debilitado. Estava com uma tuberculose avançada. O homem foi colocado num leito próximo ao de um moribundo agonizante que tremia e gritava convulsionado intermitentemente.
Algum tempo depois o homem foi transferido daquele amontoado de renegados enfermos para um sanatório particular, o Kierling, em Klosterneueberg, perto de Viena. Ali, no dia 3 de Junho de 1924, há 87 anos, morreu Franz Kafka, aos quarenta e quatro anos.

Até ontem tal informação jazia adormecida sob o mar agitado do meu consciente. Mas por um lance de dados da sincronicidade, eu, que estava decidido a ler “Os Irmãos Karamazov”, do velho Dos, enquanto farejava a prateleira da Biblioteca Pública Anísio Teixeira, senti aflorar em mim uma incontrolável vontade de reler as obras de K.






Acabo de reler “A Metamorfose”. Acabo de apreender nuances antes ignorados pela mente apressada deste pequeno e profundo lago. Acabo de recordar, após ter acompanhado o último e curto suspiro de Gregor Samsa, que amanhã, dia 3 de Junho de 2012, farão 88 anos que o meu irmão espiritual chegou ao porto último da existência individual.




Gregor Samsa, rascunho de Rafael Medeiros

Um dia, meu tio Jorge resolveu descartar uns papéis que, segundo ele, estavam sob forte suspeita de contaminação por ratos. No meio dessa pequena proto-pira eu identifiquei um livro. O seu título: A Grande Muralha da China. O autor: Franz Kafka. Eu tinha acabado de ler o primeiro “romance” da minha vida, uma historinha escrita por um Thelemita Crowleyano arrependido e hoje católico confesso um tal Paulo Coelho. Antes eu havia lido alguns contos de livros didáticos, todos, diga-se de passagem, melhores que a tal opereta besta do PC. Ali estava eu, diante do monte de papeis que dali a pouco arderiam. Ali estava eu emerso de uma paisagem bucólica, prestes a mergulhar no demonismo claustrofóbico de um austríaco desencaixado. Peguei o livro. Meu tio me deu algumas broncas, afirmou ser arriscado tatear tudo que jazia ali naquela pré-Geena. Mas o livro gritava, estávamos imantados, e eu não opus resistência. Foi o primeiro Grande Livro que eu li, e desde então, Franz Kafka habita em mim, e assim será pelo resto dos meus dias, até que este asilo azul oval cobre de mim o escasso fôlego que ele a tanto custo me empresta.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

AVISO ÀS NAUS À DERIVA



Tenho concentrado meus neurônios em outras plagas, meus signos têm vibrado em outras frequências, portanto, assim que o meu louco dial re-sintonizar-se com o tom deste blog, eu volto.